O feijão gaúcho entrou em 2026 com um recado claro: o improviso tem preço. A Emater/RS-Ascar registrou desenvolvimento desuniforme nas lavouras da primeira safra, reflexo direto das chuvas irregulares que dominaram o verão no Estado.
Enquanto algumas áreas colheram produtividade razoável, outras viram flores e vagens caírem antes do tempo. O diferencial entre perdas e bons resultados não foi o acaso — foi planejamento, tecnologia e manejo preventivo do solo. Dados reais, argumentos sólidos.
O feijão diante do clima que não perdoou
O verão de 2025/2026 testou os limites fisiológicos da planta no Rio Grande do Sul. A irregularidade das chuvas criou um mosaico de resultados: lavouras em excelente condição ao lado de outras em colapso produtivo, às vezes na mesma região administrativa.
A Emater/RS-Ascar projetou 26.096 hectares cultivados na primeira safra, com produtividade média estimada em 1.779 kg/ha. A estiagem prolongada já ocasionou perdas irreversíveis na qualidade do grão e na produtividade, com abortamento de flores e queda de vagens em formação, especialmente nas lavouras que ingressavam na fase reprodutiva.

A produção da primeira safra caiu de 46 mil para 41 mil toneladas — uma queda de 11,6%. As áreas mais afetadas foram justamente as que estavam em fase reprodutiva durante os períodos mais secos e quentes.
O dado mais relevante para quem precisa convencer produtores resistentes à mudança: não foi o tempo que decidiu o resultado. Foi o preparo.
Compreender por que tantas áreas perderam tanto exige olhar para dentro da planta no momento mais delicado do ciclo.
Floração e enchimento: as janelas que o estresse destrói
A fisiologia do feijão é direta. O período crítico ao déficit hídrico começa cerca de 15 dias antes da floração. A falta de água nessa janela provoca queda no rendimento por redução na área foliar, aumento da resistência estomática, e menor número de vagens e sementes por vagem.
Em solos sem cobertura adequada e sem monitoramento de umidade, as lavouras gaúchas não tiveram defesa. Flores que deveriam se transformar em vagens simplesmente não vingaram. O estresse na fase reprodutiva é irreversível — quando o dano ocorre, nenhuma chuva posterior recupera o potencial perdido.
Temperaturas acima de 35°C durante a floração também comprometem o rendimento, assim como temperaturas abaixo de 12°C, que provocam abortamento de flores. O verão irregular do RS combinou os dois extremos em diferentes momentos do ciclo.
Se o problema está na janela de vulnerabilidade da planta, a resposta precisa chegar antes dela.
Tecnologia para blindar a safra de feijão
As fazendas que saíram menos machucadas compartilhavam uma característica: informação em tempo real e proteção prévia do solo.
Três ferramentas que fizeram diferença:
- Estações meteorológicas locais e sensores de umidade — Produtores com monitoramento próprio identificaram o início do déficit antes do ponto de dano irreversível e agiram com mais velocidade do que quem dependia de dados regionais agregados.
- Bioestimulantes à base de extratos naturais — Tecnologias como bioinsumos e microrganismos promotores de crescimento vegetal despontam como alternativas promissoras para mitigar os impactos do estresse hídrico, auxiliando no desenvolvimento radicular e na resiliência das plantas.
- Palhada sobre o solo — Reduz a evapotranspiração, regula a temperatura superficial e conserva a umidade nos dias mais quentes. Uma das práticas de menor custo e maior impacto direto na produtividade.
O argumento financeiro é direto: essas ferramentas custam uma fração do que uma quebra de 11,6% na produtividade representa em receita bruta.
O planejamento, porém, começa antes do campo — no calendário.
Lições agronômicas para a próxima safra
O melhor manejo começa no calendário, não na lavoura. O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) cruza 30 anos de dados climáticos com as necessidades da planta. Respeitando as janelas de plantio indicadas, reduz-se drasticamente a chance de a cultura sofrer estresse hídrico ou térmico em fases críticas.

Respeitar o ZARC é sincronizar a floração do feijoeiro com o período de maior probabilidade de chuvas e temperatura adequada — o oposto do que ocorreu em parte das lavouras gaúchas em 2025/2026.
A segunda safra confirmou essa lógica: por ter sido plantada mais tarde, as lavouras não foram afetadas pelo estresse hídrico que atingiu a primeira safra em algumas regiões, com estado fitossanitário e desenvolvimento considerados adequados.
Na prática: quem integra ZARC, cobertura de solo e monitoramento microclimático local reduz a exposição a perdas de forma significativa. O risco zero não existe — mas a gestão de risco, sim. E essa é exatamente a diferença entre uma safra de prejuízo e uma safra de resultado.
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Perguntas Frequentes
O ZARC indica as janelas de semeadura com menor risco por município e tipo de solo, cruzando 30 anos de dados climáticos para proteger a floração do feijão de estresses hídrico e térmico.
A 1ª safra tem plantio entre outubro e dezembro, com colheita no verão. A 2ª safra é semeada entre janeiro e fevereiro, com colheita no outono. Os prazos variam por região produtora.
O estresse hídrico e temperaturas acima de 35°C durante a floração são os principais causadores. O período crítico começa cerca de 15 dias antes da abertura das flores e é irreversível.
Aplicados em sementes ou via foliar, auxiliam no desenvolvimento radicular e aumentam a tolerância ao déficit de água do feijoeiro, especialmente nas fases de floração e enchimento de grãos.
A Emater/RS-Ascar projetou 26.096 ha na 1ª safra e 11.690 ha na 2ª safra, com produtividades médias estimadas de 1.779 kg/ha e 1.401 kg/ha, respectivamente.
O Brasil enfrenta ciclos recorrentes. Em 2025/26, o RS registrou queda de 11,6% na 1ª safra de feijão, causada por irregularidade climática e estresse hídrico durante a fase de floração.































